A colocação de uma prótese total da anca (tecnicamente conhecida como artroplastia total da anca) é uma intervenção cirúrgica que consiste na substituição anatómica das estruturas envolvidas na articulação coxo-femoral (acetábulo do osso ilíaco e cabeça do fémur) por material protésico, indicada para a abordagem à doença articular degenerativa em estadio avançado.
Neste artigo explicamos, de forma simples e baseada na evidência científica mais recente, como a fisioterapia contribui para uma recuperação segura, eficaz e duradoura.

Enquadramento histórico
As técnicas utilizadas para este procedimento cirúrgico evoluíram ao longo dos últimos anos, bem como os materiais utilizados. Classicamente, já se utilizaram próteses de marfim, aço inoxidável ou outras ligas metálicas.
No século XX, o cirurgião John Charnle introduziu a utilização de cimento acrílico como método de fixação da prótese às estruturas ósseas, conjugando um componente femoral metálico com um componente acetabular em polietileno de alta densidade, capaz de suportar cargas elevadas.
Este modelo tornou-se a base das próteses modernas, convertendo-o num procedimento previsível, reprodutível e com bons resultados a longo prazo.
Contraindicações e cuidados iniciais
Após a cirurgia, a anca ainda não está totalmente estável. Alguns movimentos podem aumentar o risco de luxação da prótese (quando a prótese sai da posição correta). Por isso, existem algumas precauções importantes nos primeiros tempos, essenciais para proteger a nova articulação enquanto os tecidos cicatrizam e o corpo se adapta.
Relativamente às contraindicações iniciais, estas variam de caso para caso e deve seguir sempre as orientações do seu ortopedista e do seu fisioterapeuta. Apesar disso, seguem alguns exemplos das contraindicações mais comuns:
- Cruzar as pernas (adução da anca)
- Dobrar muito a anca (flexão muito acima dos 90º)
- Rodar a perna operada para dentro (rotação interna)
- Fazer movimentos rápidos
Seguem também exemplos de cuidados simples a ter na fase inicial.
- Ao sentar-se, utilize cadeiras altas e firmes e evite inclinar muito o corpo para a frente
- Ao deitar-se de lado, utilize uma almofada entre as pernas
- Ao caminhar, utilize os auxiliares de marcha recomendados (canadianas ou andarilho)
- Ao vestir-se, vista primeiro a perna operada e dispa primeiro a não operada
Estes cuidados são temporários, mas são essenciais para garantir uma boa recuperação e proteger a sua nova articulação. Com o tempo e acompanhamento adequado, irá recuperar a sua independência e qualidade de vida.
Qual é o papel da fisioterapia nesta condição?
Embora a cirurgia seja um passo essencial em determinados casos clínicos, após a cirurgia, a recuperação funcional e sintomática depende em grande parte da fisioterapia. Apesar do sucesso cirúrgico, sem um programa de reabilitação adequado, os utentes operados podem manter fraqueza muscular, alterações da marcha e limitações nas atividades do dia a dia.
Deste modo, a fisioterapia tem um papel fundamental, ajudando a:
- Controlar os sinais inflamatórios
- Reduzir a dor
- Aumentar a amplitude de movimento
- Recuperar a força muscular
- Melhorar a marcha e o equilíbrio
- Reduzir o risco de queda
- Educar sobre expectativas realistas e progressão segura
- Promover a independência nas atividades diária
Como é organizada a reabilitação após a cirurgia?
A fisioterapia é organizada por diversas fases, respeitando o processo de cicatrização e a capacidade individual de cada pessoa.
1. Antes da cirurgia
| Objetivos principais | Estratégias de Intervenção |
|
|
2. Fase Inicial (2 semanas)
| Objetivos principais | Estratégias de Intervenção |
|
|
A mobilização precoce é considerada segura e benéfica, desde que adaptada à condição do utente.
3. Fase Intermédia (2 a 8 semanas)
| Objetivos principais | Estratégias de Intervenção |
|
|
4. Fase Avançada (8 a 12 semanas)
| Objetivos principais | Estratégias de Intervenção |
|
|

Conclusão
Apesar de ser claro o benefício da fisioterapia na reabilitação após a colocação de uma prótese total da anca, não existe um protocolo “perfeito” que sirva para todos os utentes. Cada reabilitação deve considerar a individualidade de cada caso clínico para ir ao encontro dos seus objetivos e necessidades específicas.
Referências
- Konnyu, K. J., Pinto, D., Cao, W., Aaron, R. K., Panagiotou, O. A., Bhuma, M. R., Adam, G. P., Balk, E. M., & Thoma, L. M. (2023). Rehabilitation for total hip arthroplasty: A systematic review. American Journal of Physical Medicine & Rehabilitation, 102(1), 11–18. https://doi.org/10.1097/PHM.0000000000002007
- Park, S.-J., & Kim, B.-G. (2023). Effects of exercise therapy on the balance and gait after total hip arthroplasty: A systematic review and meta-analysis. Journal of Exercise Rehabilitation, 19(4), 190–197. https://doi.org/10.12965/jer.2346290.145
- Wainwright, T. W., et al. (2023). Rehabilitation phases, precautions, and mobility goals following total hip arthroplasty. Journal of Orthopaedic & Sports Physical Therapy.
- Widmer, P., Oesch, P., & Bachmann, S. (2022). Effect of prehabilitation in form of exercise and/or education in patients undergoing total hip arthroplasty on postoperative outcomes—A systematic review. Medicina, 58(6), 742. https://doi.org/10.3390/medicina58060742







