Partilhe nas redes

Exercício e dor: o que ainda não lhe disseram

  • Exercício como “analgésico natural”: mito ou realidade?

É comum ouvir que o exercício físico funciona como um “analgésico natural”. A ideia de que mexer o corpo liberta endorfinas e, por isso, reduz a dor está bem enraizada no senso comum e até no discurso clínico. De facto, existe um fenómeno conhecido como hipoalgesia induzida pelo exercício, que descreve a diminuição temporária da sensibilidade à dor durante ou após a atividade física. No entanto, a investigação científica mostra que esta resposta não acontece sempre, não é igual em todas as pessoas e, sobretudo, não deve ser o principal critério para avaliar o sucesso do exercício em contexto terapêutico.

 

  • Hipoalgesia induzida pelo exercício: que fenómeno é este?

A hipoalgesia induzida pelo exercício refere-se a uma diminuição transitória da percepção da dor após um estímulo físico. Este efeito é geralmente avaliado através do aumento do limiar de dor à pressão ou da menor resposta a estímulos dolorosos após o exercício. Importa sublinhar que se trata de um efeito agudo e reversível, que pode durar minutos ou, em alguns casos, até cerca de meia hora. Não corresponde a uma correção estrutural dos tecidos nem significa que a “causa” da dor tenha sido resolvida.

 

  • Exercício e regulação da dor: como, porquê e quando acontece?

Do ponto de vista do corpo, existem várias razões pelas quais o exercício pode ajudar a diminuir a dor. Quando nos movimentamos, o cérebro ativa mecanismos naturais que ajudam a “baixar o volume” da dor, controlando a forma como os sinais dolorosos são interpretados. Durante o exercício, o organismo liberta substâncias como as endorfinas, a serotonina e a noradrenalina, que funcionam como analgésicos naturais e podem reduzir temporariamente a sensação de dor.

Além disso, o exercício regular ajuda a criar um ambiente mais equilibrado no corpo, com menos inflamação e menor sensibilidade dos nervos responsáveis por enviar sinais de dor. Em conjunto, estes efeitos ajudam o corpo a reagir de forma menos intensa aos estímulos dolorosos, tornando a dor mais fácil de gerir.

Apesar destes efeitos, a resposta à dor após o exercício não é universal. Em pessoas sem dor persistente, a hipoalgesia induzida pelo exercício tende a ocorrer de forma relativamente consistente. No entanto, em pessoas com dor crónica, a resposta é muito mais variável. Estudos mostram que, nestes casos, a redução da dor pode estar diminuída, ausente ou mesmo dar lugar a um aumento da dor após o exercício, gerando o fenómeno inverso. Esta resposta parece estar relacionada com alterações nos mecanismos centrais de modulação da dor, frequentemente associadas à sensibilização do sistema nervoso.

 

  • Podemos esperar sempre alívio imediato?

É aqui que surge um erro frequente na prática clínica: prescrever exercício com a expectativa explícita de alívio da dor imediato. Quando o exercício é apresentado como algo que “deveria tirar a dor”, cria-se uma expectativa que nem sempre será cumprida. Para o utente, isso pode traduzir-se em frustração, insegurança e medo de se mexer. Para o fisioterapeuta, pode levar à conclusão errada de que o exercício não é adequado, quando na realidade o corpo pode estar a adaptar-se de outras formas relevantes.

O valor terapêutico do exercício vai muito além da redução imediata da dor. O exercício atua como um estímulo para reeducar o sistema nervoso, melhorar a tolerância ao movimento e reduzir a perceção de ameaça associada à atividade física/movimento. Mesmo quando a dor não diminui logo — ou oscila ao longo do processo — o exercício pode contribuir para melhorias graduais na função, na confiança corporal e na capacidade de lidar com a dor no dia a dia.

 

 

  • “Eu vivo com dor”: O que significa isto para mim?

Para quem vive com dor, isto significa compreender que sentir algum desconforto durante ou após o exercício não equivale automaticamente a lesão ou agravamento do problema. A dor é uma experiência complexa, influenciada por fatores físicos, emocionais e contextuais, e nem sempre reflete dano nos tecidos. O corpo precisa de exposição gradual ao movimento para reaprender que mexer-se não é perigoso.

Em síntese, a hipoalgesia induzida pelo exercício é um fenómeno real e bem documentado, mas não deve ser encarada como um objetivo obrigatório. O exercício não é um botão para desligar a dor. É, acima de tudo, uma ferramenta poderosa para ajudar o sistema nervoso a tornar-se menos protetor e mais adaptável ao longo do tempo.

 

Referências

  • Lesnak, J. B., & Sluka, K. A. (2020). Mechanism of exercise-induced analgesia: what we can learn from physically active animals. Pain reports5(5), e850. https://doi.org/10.1097/PR9.0000000000000850
  • Rice, D., Nijs, J., Kosek, E., Wideman, T., Hasenbring, M. I., Koltyn, K., Graven-Nielsen, T., & Polli, A. (2019). Exercise-Induced Hypoalgesia in Pain-Free and Chronic Pain Populations: State of the Art and Future Directions. The journal of pain20(11), 1249–1266. https://doi.org/10.1016/j.jpain.2019.03.005
  • Sluka, K. A., Frey-Law, L., & Hoeger Bement, M. (2018). Exercise-induced pain and analgesia? Underlying mechanisms and clinical translation. Pain159 Suppl 1(Suppl 1), S91–S97. https://doi.org/10.1097/j.pain.0000000000001235

Diogo Santos

Fisioterapeuta

Fale connosco
1