A dor cervical, no geral, representa um problema de saúde global de grande relevância. A revisão epidemiológica de Kazeminasab et al. (2022) revelou que a prevalência mundial atingiu 27 casos por 1000 pessoas em 2019, com maior incidência entre os 45 e os 74 anos e maior prevalência no sexo feminino. O impacto económico é também substancial: nos Estados Unidos, a dor cervical e lombar representaram cerca de 134,5 mil milhões de dólares em gastos de saúde em 2016, e milhões de dias de trabalho perdidos (Dieleman et al., 2020 cit. em Kazeminasab et al., 2022). Estes números demonstram que estamos perante uma condição que combina elevada frequência, incapacidade e custos sociais e económicos significativos.
O que é e quais os sintomas?
A radiculopatia cervical – muitas vezes descrita como “um nervo comprimido no pescoço” – é uma causa frequente de dor irradiada para o braço. Os seus sintomas podem incluir dormência, formigueiro, fraqueza e uma sensação de choque elétrico ao longo do trajeto do nervo. Apesar de ser uma condição dolorosa e incapacitante, os estudos mostram-nos que, na maioria dos casos, o prognóstico é favorável e que a fisioterapia desempenha um papel fundamental no processo de recuperação.
Causas
Esta condição é normalmente associada a alterações estruturais como hérnias discais, alterações degenerativas, estenose foraminal – entenda-se por estreitamento dos pequenos orifícios laterais das vértebras cervicais -, ou inflamação.

No entanto, a literatura atual demonstra que a sua origem é multifatorial. Isto é, fatores biológicos, psicológicos e ocupacionais influenciam tanto o aparecimento como a persistência da dor (Kazeminasab et al, 2022).
| Fatores biológicos | Fatores psicológicos | Fatores ocupacionais |
| IdadeDoenças auto-imunesEspondilosePredisposição genéticaAlterações Músculo-esqueléticas | StressAnsiedadeDepressãoPensamentos negativos sobre a dorBaixa auto-eficácia | Posturas mantidasTrabalho prolongado ao computadorElevada carga laboralBaixo suporte organizacional |
Diagnóstico
Também no diagnóstico, a ciência tem evoluído. Sleijser-Koehorst et al. (2021) demonstraram que nenhum teste isolado é capaz de confirmar a presença de radiculopatia cervical. O diagnóstico deve resultar da combinação de vários elementos:
- História clínica detalhada – padrões de dor, fatores que agravam ou aliviam, sintomas e presença de dormência;
- Testes físicos – teste de Spurling, avaliação de força, reflexos e testes neurodinâmicos;
- Exames complementares de diagnóstico, quando necessários.
Curiosamente, características como dor no braço mais intensa do que no pescoço, presença de parestesias e alívio ao elevar o braço aumentam a probabilidade de diagnóstico, enquanto a ausência de dormência tende a reduzi-la. Este conjunto de informações reforça a importância do raciocínio clínico do fisioterapeuta na avaliação.
Como tratar?
Quanto ao tratamento, a evidência é clara: a maior parte dos casos melhora sem recurso à cirurgia. A revisão de Peene et al. (2023) mostra que 70% a 95% dos pacientes recuperam com tratamento conservador, sendo a fisioterapia — sobretudo quando integrada numa abordagem ativa — o pilar central dessa recuperação. As melhorias podem surgir nas primeiras semanas, mas o processo completo pode prolongar-se até 2 ou 3 anos, o que destaca a importância de estratégias de longo prazo e acompanhamento contínuo.
Os estudos demonstram que a cirurgia pode proporcionar um alívio mais rápido de alguns sinais neurológicos, mas essa vantagem diminuiu com o passar dos meses. Posto isto, a fisioterapia destaca-se pela segurança, ausência de eventos adversos e potencial para ser mais custo-efetiva, ainda que sejam necessários mais estudos económicos. Mais especificamente, a intervenção em fisioterapia combina diferentes modalidades: exercícios (de mobilidade, força e controlo motor), técnicas de mobilização articular e neurodinâmica, treino de ergonomia, estratégias de gestão de stress e educação.
Naturalmente, existem situações em que intervenções adicionais podem ser consideradas. Injeções epidurais podem servir como auxílio a curto prazo em casos de dor intensa que impede o progresso na reabilitação. A cirurgia, embora eficaz em casos selecionados, deve ser reservada para situações de défice neurológico progressivo, dor incapacitante persistente após tratamento conservador adequado ou sinais de mielopatia. Excluindo esses cenários, a fisioterapia personalizada deve ser o tratamento de primeira linha (Klein Heerenbrink et al., 2024).
Notas finais
Quando olhamos para o conhecimento disponível e actual, a mensagem é clara: a radiculopatia cervical não deve ser encarada como uma condição que exige passividade do utente ou recurso precoce à cirurgia. Pelo contrário, é uma condição com prognóstico muito favorável quando abordada de forma ativa, personalizada e baseada na melhor evidência científica. A fisioterapia destaca-se hoje como a abordagem mais eficaz, segura e sustentável, promovendo não apenas a diminuição da dor, mas também a recuperação funcional, a autonomia e a prevenção de recidivas.


